Conto Autoral – A CADEIRA por Luana Braga
Lá estava ela, a cadeira alta, revestida de couro marrom. Parecia ocupar o lugar mais iluminado da casa. Mesmo “no auge” dos seus 7, talvez 8 anos, dedicava um grande esforço para sentar naquela coisa que mais parecia uma montanha, uma montanha incrível, que ainda por cima, girava. Assim que a escalava, tinha a dimensão gigantesca de onde estava. Dali parecia enxergar tudo. Através da janela percebia pessoas caminhando despreocupadas como se o mundo não estivesse prestes a acabar.
Eram muitos documentos para grampear, folhas para organizar, cheques vencidos para assinar, ninguém esvaziava o furador, sempre era ela que não o deixava transbordar. Ali, absorta em sua fantasia, atendia telefonemas mudos, resolvia problemas inexistentes rapidamente, tudo era lógico e óbvio. Em meio a tanta responsabilidade, por vezes se perdia, o tempo de silêncio repousava em uma pirâmide de vidro bem bonita. Quando voltava a si, lembrava que a orientação era clara
– Tudo sobre a mesa pode ser utilizado, mas a pirâmide de vidro era proibida. Suas mãos ferviam por segurá-la. A menina era muito inteligente, não arriscaria, conhecia bem o pai, se não obedecesse, aproximar-se da cadeira não mais poderia.
Ia mudando de posição, quando os pés pendurados pesavam, então os cruzava sobre o assento, arrumava sua maleta que originalmente deveria ser de maquiagem, se despedia dos colegas imaginários e cansada da altura descia, na esperança claro, de que na semana seguinte, a distância encurtaria.
Porque sim, ela era assim, desde lá, suas pernas curtas gostavam de lugares grandes. Assim, entre passeios de bicicleta, aulas de balé, trabalhos da escola, brincadeiras de esconde-esconde, e claro, reuniões muito importantes, ela vivia. As viagens eram rotina, “ao” sol a família toda se refazia. Em uma noite tão linda, dois minutos antes da
chegada em seu destino final, vidros estilhaçados e um ruído estridente, como por milagre, seu pé “direito” preso embaixo do freio de mão salvou-lhe a vida. Mas seu pai, Deus levou, para recomeçar de um outro ponto de partida.
Ela não sabia, mas era a primeira vez que o seu mundo caía. Silêncio era só o que ouvia, parecia que terra girava cansada. A mãe com 41 anos, em voz alta dizia pra alma que ali não mais vivia: – Por que foi me deixar agora e sozinha? Então mudava os móveis de lugar e por uns dias se preenchia. A menina? Ouvia. Nesse momento de fragilidade, um homem da própria família se colocou disponível como um pai, a criança não sabia, o que ele queria dela? Ninguém viu. Tudo que era do pai sumiu, a mesa desapareceu, o couro da cadeira desgastou, rasgou, ruiu, esfarelou, as fotos nas paredes foram substituídas por dor. Uma única coisa sobrou, a pirâmide de vidro ficou. A menina, aos 11 anos, sem saber que podia, decidiu não sentir, seguiu.
Suas coisas para o quarto dos pais, levou, a cama era grande, ao lado da mãe, ficou, cerrou os olhos, pausou a respiração e silenciosamente gritou. Seu espaço a mesa buscou, estranhamente tudo parecia fora de lugar, ninguém mais sabia onde se sentar. Ao olhar para os 7 irmãos mais velhos, não titubeou, uma cadeira tomou. A cabeceira agora era o seu lugar.
Naquele mesmo dia, um a um, foram atravessando a porta, despedindo-se e partindo. Com a mãe, ficou a menina de pernas curtas e dois irmãos maiores que por lá mais um tempo moraram, mas ela foi logo avisando: – Agora precisamos nos organizar, cada um assuma a sua parte, vamos dar jeito da nossa mãe cuidar. Os irmãos riram da baixinha de queixo empinado, a mãe em sua máquina de costura, levantou os olhos e disse: – Pare de dizer bobagens e vá fazer algo de útil, menina. Ela, desesperada as unhas, roía.
Aos 12 anos começou a trabalhar, a mãe dava conta, mas ela queria ajudar. Devagar, os meninos se foram, cada um por seu motivo, mas ela estava tão ocupada que demorou pra se dar conta que não estavam mais lá. Aos 14 anos, trabalhava em turno integral e ia pra escola à noite para terminar o segundo grau.
Jogava vôlei, capoeira, ia para academia. Não parava um segundo, só fazia. Estudou espanhol, inglês, francês, informática e datilografia, há 30 anos atrás, era o que tinha. Escrever sobre o amor e a dor era o que se permitia. Pensou em ser psicóloga, escritora, mas ao redor, todos diziam que com essas profissões, o dinheiro não viria. Tinha amigas da vida, e elas perguntavam o tempo todo, por que ela não falava o que sentia? Nunca esteve sozinha. A resposta era imediata: Ora bolas, a mãe era muito frágil, se a visse naquele estado, não aguentaria. Aos 15 anos, trocou a festa pela emancipação em cartório. Aos 16, parou de dançar, os pés sangravam dentro das sapatilhas, seus joelhos não suportavam tamanha exaustão. Começou a fumar e o álcool a incorporar. Aos 18 anos, um dos maiores pavores da sua vida, a carteira de motorista. A coragem lhe faltou por um longo tempo, dirigir um carro, era muito arriscado, ainda doía.
No meio de tudo isso, aos 48 anos a mãe quase morreu, a pressão subiu, imobilizou seu lado inteiro direito, precisava de auxílio para se alimentar, por seus filhos renasceu. Reaprendeu a comer, escrever e a andar. Mais uma lágrima caiu, por pouco a menina não sucumbiu. Lembrou da pirâmide de vidro, mas entre o quarto e a sala de estar, ruiu.
Aos 20, mudou de país, seus passos eram largos demais, este lugar é pequeno para mim, ela dizia. Três meses se passaram, o silêncio e a arrogância gritavam “culpada”. Arrumou a mala. Para sua terra voltou e ficou, estava decidida, precisava de uma cadeira bem alta, agora sentia-se preparada, os pés já alcançariam o chão. Comprometida, responsável e dedicada, assim ela se enxergava. Aos 23 anos assumia: Os papéis, os cheques, o grampeador, ver as pessoas de cima, ainda lhe preenchia. Administração de empresas era sua vida, certamente o sonho de ser “uma grande executiva de uma multinacional” chegaria. O conhecimento de verdade não tinha tanto valor, os certificados sim, recebia com louvor. Na época ela não entendia, hoje sabe que representavam a segurança que desde suas lembranças de menina não tinha.
Preparava-se para as entrevistas, quase não dormia. Sempre era admitida, logo demonstrava a que vinha. Os líderes eram paternais, creditavam a menina crescida um potencial que ela mesma não via. E assim, determinada, a altura da cadeira subia. Uma escolha se aproximou, mas, um filho não se permitiu gestar, não era hora, se o namorado a amasse de verdade, entenderia. O momento não era apropriado, aos olhos dela, para essa criança não tinha nada para dar.
Aos 26, em um exame de rotina, descobre uma doença uterina incurável que avisa, se não engravidar em breve, filhos não poderá mais gerar. Sentindo as pernas penduradas e a textura do couro esmaecido, se põe na cadeira a girar.
Não há nada que ela não consiga, podia provar. Meses depois, por insistência daquele mesmo namorado, aquele, sabe? Casou! 60 dias depois, um exame feliz confirmou, agora a família estava pronta, ela, feliz que não se cabia, da pirâmide de vidro lembrou. O menino nasceu, saudável, risonho, carinhoso, cresceu. A menina que já não era tão moça teve medo, mas o instinto mulher prevaleceu.
Dois anos se passaram, até que uma dor lancinante lhe acometeu, tudo estava bem e de repente desfaleceu. Levada às pressas ao hospital, despertou sob os olhos lacrimejantes do seu grande amor, suas palavras absorveu:
– Perdemos um bebê, sua trompa rompeu. Mais uma lágrima. A culpa a acometeu, a esperança de só mais um filho, perdeu. Enquanto a cadeira na empresa subia um degrau, o casamento abandonado quase morreu.
Aos 30 anos, voltou para terapia, se deu conta que tinha tudo, menos o entendimento que necessitava seu eu. Criou um blog e a ilusão de que isso seria suficiente no breu. De repente, mais uma lágrima, do nada, desceu. Junto com
ela, do céu, uma surpresa em seu ventre cresceu. Aquele útero, parecido com a cadeira de couro, quase desenganado, floresceu.
Durante a gestação, algo que sempre esperou, em sua direção caminhou. Seus olhos brilhavam, seu ego expandia. Agora sim, a cadeira que tanto queria, viria. Com sua barriga linda, fez a entrevista, após a licença maternidade iria. Ela foi escolhida. A proposta que fez a empresa, imediatamente atendida. A euforia era quase um poema. Sonho realizado, agora que a cadeira tem o tamanho certo, seus pés calejados precisavam voar para outro estado. Casa, marido, 2 filhos e 1 cachorro, fácil não seria, mas lembra, não há nada que ela não consiga. Ao final dos quatro meses de licença maternidade, em um mundo bem masculino ousou entrar, São Paulo que a
aguardasse, ponte aérea, viraria seu lar. Ao pai dos seus filhos avisou:
– Vou na frente, me preparei a vida toda garantiu, disso sei cuidar, se tudo der certo, vamos todos mudar? Nos olhos daquele homem ficou o desespero de quem tinha certeza, coragem para ir, ela tinha e ia. Mesmo antes do embarque, chorou. Ao entrar no avião, quase voltou, mas depois de tudo o que viveu pra ali chegar, não se perdoaria. Lembrou da pirâmide de vidro, afivelou o cinto de segurança, esfregou as mãos no couro da poltrona, de um jeito estranho, o ato parecia familiar.
Trabalhava das 6h às 23h sem cessar, uma grande executiva, guarda a preguiça no bolso, cigarros volta a fumar, nada era suficiente para não pensar, a saudade refletia em insônia e mal estar, mas uma voz que até parecia a sua dizia: – Calma menina, isso é o seu sonho, pare de reclamar.
Em uma noite chuvosa, o telefone toca sem parar, meio sobressaltada, ouve a voz da mãe a chorar, volta pra tua casa minha filha, teus filhos têm febre de tanto esperar. A menina é tão petulante, que manda a mãe se acalmar. Liga para o marido, preocupada em ajudar, está tudo resolvido diz ele, não precisa se incomodar. Com a voz abandonada, relata que estão todos bem, e sugere que ela vá descansar.
Cansada de escolher andar sozinha, entendeu qual era o seu lugar. Sentiu o rosto inchando, uma lágrima atrás da outra a saltar, demorou, mas percebeu, longe deles era doloroso demais ficar. Pra casa voltou e pela primeira vez na vida, não tinha pressa para recomeçar. Seus filhos precisavam de sua presença, amor tinha muito pra dar. Logo, uma proposta veio como gatilho, quem sabe uma escola comprar? Lá as cadeiras não eram de couro, mas não havia nada que não pudesse mudar.
824 famílias para administrar, 30 funcionários para pagar, não era bem o que sonhava, mas de fato, seus filhos levava e buscava, ajudava a fazer os temas e com a família podia almoçar. Um suspiro a levou a acreditar: – Agora encontrei meu lugar.
Aos 40 anos, o irmão com câncer morreu, a mesma doença do tio e do avô o acometeu. Mais uma vida sua mãe perdeu. A pirâmide de vidro ia e vinha, já começava a assombrar. Na empresa não queria mais estar, só queria um pouco de paz pra pensar. Voltou a rezar, meditar, dançar, gargalhar. Passou a vasculhar a vida e finalmente respirar. Viu o valor da presença, entregou a escola a quem queria tomar. O marido já cansado de tanta aventura, suspirou e viu o dinheiro da aposentadoria escapar. Como assim, ele dizia? Tua empresa, vais doar? – Sim, e só pra constar, ficarei algum tempo sem rendimentos, consegue me amparar? Foram palavras difíceis de verbalizar, porém a resposta veio sem piscar, um grande homem nascia lá. Seus filhos viam a felicidade da mãe aumentar, a presença solidificar, eles estavam alegres por poderem dela partilhar. A mãe da agora mulher sorria orgulhosa sem questionar, e pela primeira vez na vida, a menina viu o que
sempre esteve lá. Naquele olhar havia doçura, força e total disponibilidade em entregar.
O tempo foi passando e ela renasceu pra amar. Hoje, servindo a vida como Terapeuta e Professora, realizada parece estar. No escuro da noite, deita acompanhada apenas de um chá, os filhos já estão na cama, acabaram de orar. Agora naquela casa, quem viaja é o homem, também feliz em seu lugar. Algo estranho faz sua mente inquietar:
– E se eu tiver um derrame e amanhã não acordar? O pai dos meus filhos pode morrer na estrada, meu Deus o que será dessas crianças sem um lar. Podem se envolver com drogas, álcool e não mais a vida suportar? Diante destes pensamentos, já não conseguia respirar, o corpo foi amolecendo e as pernas bambear. Conseguiu abrir as janelas, o floral na boca inteiro derramar.
Acordou com a luz do sol cegando os olhos, teve medo de imobilizada estar. Moveu seu corpo bem devagar, tentando raciocinar. Sim, essa foi a vida da sua mãe, mas e o quanto disso na dela poderia impactar? Pelo seu entendimento na época, era algo que ainda precisava olhar. Para o marido contou mesmo antes da viagem terminar, pediu atenção e cuidado na estrada, sem ele, era bem difícil ficar.
Os filhos pularam na cama, querendo brincar. Foi quando um dos irmãos, o mais velho do seu sistema materno, entrou em contato com ela querendo conversar. Parece história da carochinha, mas o relato dele sobre a noite anterior era exatamente o mesmo que fazia a cabeça dela girar. Os dois ao mesmo tempo, através do amor, fidelidade e medo, conseguiram se reconectar.
O impulso foi de ajuda buscar. De constelação familiar já tinha ouvido falar. Agora era tudo mais fácil, a internet estava ali pra colaborar. Quando o assunto terminou de digitar, uma flor roxa a fez despertar, juro por Deus, eu vi, eu estava lá. No aeroporto despediu-se dos filhos e do seu homem, mas dessa vez ousou voltar, a eles disse “eu te amo”, “já vou voltar”. Suspirou aliviada, um silêncio profundo a preencheu, uma calma que não soube explicar, nada assim tinha acontecido com ela, foi fácil acompanhar sua alma pra esse lugar.
Ao retornar do primeiro encontro, extasiada e agradecida fecha os olhos para descansar, reflete sobre a força dessa pirâmide que insiste em acessar. Ao acordar, percebe o simbolismo de vida e morte que busca sem parar. Do seu lugar de filha, pergunta a mãe com a cabeça baixa de quem agora consegue ver a arrogância que sempre esteve lá: – Mãe, a pirâmide de vidro do pai, onde está? A mãe com os olhos azuis como o mar, sorri, abraça a filha e responde com uma amorosidade quase subliminar: “Onde sempre esteve minha filha, na tua alma, a guiar”.
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